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Os 60 anos da renúncia de Jânio, um salto no escuro

Jânio em campanha para presidente (1960)

O Brasil lembra hoje os 60 anos da renúncia do presidente Jânio Quadros. O inesperado gesto do presidente jogou o país em uma crise política e institucional sem precedentes.

Em 2017, a revista Cidade Verde publicou uma reportagem especial que fiz sobre ele, na passagem do centenário do seu nascimento.

O texto descreve a meteórica carreira política de Jânio, a humilhante derrota que impôs ao presidente mais popular da história, JK, e o cavalo de pau que ele deu quando chegou ao Planalto.

Também mostra a sua figura beligerante, sem apreço aos partidos e às instituições democráticas, moralista, corajosa e golpista.

Vale a pena a (re) leitura do texto, para lembrar ou conhecer o político personalista, populista e inteligente que foi o ex-presidente, hábil na arte de espalhar brasa com os pés e de cuspir fogo pelas palavras:

ESPECIAL

Jânio Quadros: os 100 anos de um político incomum

Zózimo Tavares

Polêmico, misterioso, revolucionário, culto, imprevisível, autoritário, estadista, populista, direitista, carreirista, pernóstico, reacionário e louco. Estas e outras facetas do ex-presidente Jânio Quadros, mais a de que era também dado a porres homéricos, serão lembradas e acentuadas ao longo deste ano, na passagem do centenário do político mais controvertido que o Brasil conheceu. Várias reportagens especiais serão feitas e muitos livros sobre sua vida e sua trajetória política serão lançados e relançados.

Orador teatral, Jânio Quadros despertava empatia e envolvia as massas. Mestre em português, geografia e história. A imprensa e as lideranças políticas de seu tempo tentaram pintá-lo com tintas caricaturais. Ele estava pouco se lixando para os que procuram ridicularizá-lo como uma personagem folclórica da política nacional.

Jânio Quadros, pelo contrário, até dava munição aos adversários. Em comícios, ele jogava pó sobre os ombros para simular caspa, de modo a parecer um “homem do povo”. Também tirava do bolso sanduíches de mortadela e os comia em público.

No poder, proibiu as brigas de galo e o uso de lança-perfume, criando polêmicas com questões menores, que o mantinham sempre em evidência, como um presidente preocupado com o dia a dia do brasileiro.

Por trás daquela figura exótica de homem público, estava um político astuto, austero e arrojado. Um governante que sabia exercer o poder em sua plenitude. Além disso, o homem culto, poliglota, que escrevia e falava fluentemente em inglês, francês, espanhol e italiano. Viajou o mundo todo.

Mais do que qualquer outro político brasileiro, conheceu e gozou da amizade ou do relacionamento com os maiores estadistas e governantes de sua geração; de John Kennedy a Krustchev; de Churchill à rainha Elizabete II; de Fidel Castro a Kadafi; de Nasser a Golda Meir; de De Gaulle a Miterrand; de Salazar a Franco; de Pio XII a João Paulo II.

Nasceu com a Revolução

Jânio da Silva Quadros tinha tudo para ser explosivo, como o foi pela vida inteira. Ele nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso, em 25 de janeiro de 1917, ano de gigantescas turbulências pelo mundo, a maior delas a eclosão da Revolução Russa. Foi criado em Curitiba, onde fez o ensino básico. Mudou-se ainda jovem para São Paulo.

Foi professor e advogado, antes de se tornar político, em 1947, quando assumiu o mandato de vereador de São Paulo, pelo Partido Democrata Cristão (PDC), tendo por base eleitoral o operariado do bairro Vila Maria. E daí para a frente não chegou a cumprir integralmente nem um dos mandatos para os quais se elegeria.

Jânio passou na Câmara Municipal até 1950, e ficou conhecido como o maior autor de proposições, projetos de lei e discursos de todas as casas legislativas do país no período. Também assinou a grande maioria das propostas e projetos considerados favoráveis à classe trabalhadora.

A seguir, foi consagrado como o deputado estadual mais votado, com mandato entre 1951 e 1953. Na sequência, elegeu-se prefeito do município de São Paulo, o que caracterizou uma grande façanha política, pois enfrentou um enorme arco de partidos, assim composto: PSP-PSD-UDN-PTB-PRP-PR-PL.

Essa poderosa coligação registrou a candidatura do professor Francisco Antonio Cardoso, que tinha uma campanha milionária, com uma enxurrada de material de propaganda e com apoio ostensivo das máquinas municipal e estadual.

Do outro lado, o PDC e o PSB lançam Jânio Quadros, com poucos recursos financeiros. E ele começou tirando partido da situação. Sua campanha foi chamada de o ‘tostão contra o milhão’. Exerceu a função de 1953 a 1955, licenciando-se do cargo, em 1954, para concorrer ao Governo do Estado.

Já fora do PDC, filiou-se ao Partido Trabalhista Nacional (PTN) e foi candidato da aliança PTN-PSB a governador de São Paulo. Venceu o pleito. Ele derrotou o favorito Ademar de Barros (um de seus maiores rivais políticos) por uma pequena margem de votos, de cerca de 1%. Sua gestão foi entre 1955 e 1959.

Durante o mandato, procurou executar ações que passassem uma imagem de moralização da administração pública e de combate à corrupção. Era comum ele fazer visitas de surpresa às repartições públicas, a fim de verificar a qualidade do serviço oferecido à população.

Também adotou uma ação empreendedora que buscava destaque e projeção, seja na criação de novos serviços e órgãos ou na construção de grandes obras. Assim, angariou grande popularidade e se consagrou como um líder entre os paulistas.

O “Homem da Vassoura”

Com a popularidade em alta, a ida de Jânio para a presidência da República foi um salto. Assim, ele entrou para a história como o político que fez a carreira mais meteórica de seu tempo. Em 13 anos, ele foi de vereador a presidente.

Antes de chegar ao Planalto, como fenômeno eleitoral, ele elegeu-se ainda deputado federal pelo estado do Paraná, em 1958, mas viajou para o exterior e não pôs os pés em nenhuma das sessões do Congresso. Só apareceu lá para tomar posse.

Ao retornar ao Brasil, preparou sua candidatura à presidência, com apoio da incendiária União Democrática Nacional (UDN). Conquistou grande parte do eleitorado prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele criada: varrer toda a sujeira da administração pública. Seu símbolo de campanha era uma vassoura. Utilizou como mote da campanha o “varre, varre vassourinha, varre a corrupção”.

Foi eleito o 22º presidente, em 3 de outubro de 1960, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos, considerada a maior votação obtida no País até então. Ele venceu por uma diferença de mais de 2 milhões de votos o marechal Henrique Lott, ex-ministro da Guerra. Uma vitória espetacular, pois ele estava derrotando um candidato que gozava de alto conceito na República e que fora apresentado pelo presidente Juscelino Kubitschek, no auge de sua popularidade.

Naquela época, as regras eleitorais estabeleciam chapas independentes para a candidatura a vice-presidente. Por esse motivo, João Goulart, o vice de JK e líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), foi reeleito.

Uma sucessão de crises

Em seu governo, Jânio Quadros atuou com algumas frentes que causaram muita polêmica e que são lembradas até hoje. Ele deu continuidade à política internacional, restabelecendo relações diplomáticas e comerciais com a União Soviética e a China, algo impensável dentro da geopolítica de então, que dividia o planeta em dois gigantescos pólos ideológicos.

Também nomeou o primeiro embaixador negro da história do Brasil e homenageou Che Guevara com a mais alta condecoração do país, a Ordem do Cruzeiro do Sul. Jânio criou as primeiras reservas indígenas, como o Parque Nacional do Xingu, e os primeiros parques ecológicos nacionais, entre eles o de Sete Cidades, no Piauí.

Ele teve também atitudes prosaicas na presidência. Governava por bilhetinhos e chegou a proibir as rinhas de galo, o uso de biquíni em concursos de miss que fossem televisionados e o lança-perfume em bailes de carnaval. E ainda regulamentou o jogo de carteado. Essas medidas continuam em vigor até hoje. 

Um salto para o golpe

Mais rápida que a ascensão, foi a queda de Jânio. Ele fez um governo-relâmpago, em seu curto mandato de presidente, de 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961, quando renunciou. Até hoje sua renúncia não foi completamente esclarecida. A resposta para o seu surpreendente gesto desafia os historiadores. Há quem avalie que ele renunciou em busca de mais poder, pois seu plano original seria retornar nos braços do povo. Há também uma versão, pendendo mais para o humor, de que ele estava de porre.

O fato, no entanto, é que em sua breve gestão de apenas sete meses, Jânio Quadros praticou uma política econômica e uma política externa que desagradou profundamente os políticos que o apoiavam, setores das Forças Armadas e outros segmentos sociais.
Sua renúncia, que ele próprio atribuiu a “forças terríveis”, desencadeou uma crise institucional sem precedentes na história republicana do país, porque a posse do vice-presidente João Goulart não foi aceita pelos ministros militares nem pelas classes dominantes.

Desafiando as “forças terríveis”

O governo de Jânio Quadros perdeu sua base de apoio político e social a partir do momento em que adotou uma política econômica austera e uma política externa independente.

Na área econômica, o governo se deparou com uma crise financeira aguda causada por intensa inflação, déficit da balança comercial e crescimento da dívida externa. O governo adotou medidas drásticas, restringindo o crédito, congelando os salários e incentivando as exportações.
Mas foi na área da política externa que o presidente Jânio Quadros acirrou os ânimos da oposição ao seu governo. Jânio nomeou para o ministério das Relações Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar radicalmente os rumos da política externa brasileira.

O Brasil começou a se aproximar dos países socialistas. Um passo desafiador foi o restabelecimento das relações diplomáticas com a União Soviética (URSS), à época a segunda potência mundial, em confronto permanente com os Estados Unidos.
Atitudes de menor importância também tiveram grande impacto, como as condecorações oferecidas pessoalmente por Jânio ao guerrilheiro revolucionário Ernesto “Che” Guevara e ao cosmonauta soviético Yuri Gargarin, além da vinda ao Brasil do ditador cubano Fidel Castro.


Renúncia foi uma denúncia

Para seguidores de Jânio, como Gastone Righi, deputado federal (já falecido) por quatro legislaturas por São Paulo e ex-presidente nacional do PTB, não houve uma renúncia, mas sim uma denúncia.

A denúncia, segundo ele, era a de que o país era ingovernável. O sistema político, as organizações administrativas e do estado, a Constituição e as instituições eram todos modelos importados, sem qualquer eficácia ou qualquer funcionalidade para o país e o resultado só poderia ser o caos.

Se foi uma denúncia, ela não encontrou eco.

Preso pela ditadura

Acusado de direitista pela esquerda brasileira, Jânio não era bem visto, no entanto, pelos militares que tomaram o poder em 1964. Ele foi um dos três ex-presidentes a ter seus direitos políticos cassados, ao lado de João Goulart e  Juscelino Kubitschek.

Após fazer declarações à imprensa em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, em julho de 1968, o ex-presidente foi detido pelo Exército brasileiro, por ordem do então ministro da Justiça,  Gama e Silva. Ficou confinado em Corumbá, cidade situada no  Pantanal Sul-matrogrossense, na fronteira com a Bolívia.

Jânio recuperou os direitos políticos em 1974, mas manteve-se afastado das urnas inclusive nas eleições legislativas de 1978, ano em que seus simpatizantes (agrupados sob o denominado “Movimnto Popular Jânio Quadros”) o levaram a visitar o bairro paulistano de Vila Maria, tradicional reduto “janista”.

O uso da mesóclise

Jânio Quadros era um especialista em língua portuguesa, e um mestre na colocação dos pronomes, em especial os oblíquos. Um frasista inspirado (“O povo será a um tempo minha bússola e o meu destino.”; “Bebo-o porque é líquido, se fosse sólido comê-lo-ia.”; “Intimidade demais provoca duas coisas que odeio: filhos e aborrecimentos.” )

Seu modo de falar, encandindo as sílabas, fazia com que suas frases ficassem para sempre gravadas na memória do interlocutor. E muitas caíram também no anedotário nacional, como a “fi-lo porque qui-lo”, sobre sua renúncia. Deixou uma obra literária. Seu dicionário, sua gramática e sua história do povo brasileiro são trabalhos que se inserem na cultura nacional de todos os tempos.

Como lembrou o escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Jânio foi um professor de um zelo inexcedível pela língua portuguesa. “Ele marcou sua vida por uma sucessão de surpresas, a começar pelas frases bem elaboradas, em que se divertia com a colocação de mesóclises, em geral para significar o seu apreço pela língua”, destacou.

O ex-presidente faleceu em 16 de fevereiro de 1992, em São Paulo, onde viveu quase toda a sua vida, depois de sofrer vários AVC’s. Tinha 75 anos. Já havia se despedido da vida pública e vivido também o seu entardecer na política, depois de exercer o segundo mandato de prefeito da capital, de 1986 a 1989, derrotando nas eleições de 1985 o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.  

Livros que falam de Jânio

Desde a morte de Jânio, em 1992, apareceram vários livros tentando  jogar alguma luz sobre a lendária figura do ex-presidente. Em 1996, saíram três de uma só vez: A Renúncia de Jânio (Rio de Janeiro, Revan, 1996), do jornalista Carlos Castello Branco, que foi seu secretário de Imprensa.

Também foi lançado Jânio Quadros – Memorial à história do Brasil (São Paulo, Rideel, 1996), coleção de artigos de e sobre Jânio, cujo ponto alto é o texto de recordações do neto do ex-presidente.

Outro livro que foi bem recebido pela crítica foi o Viagem com o Presidente Eleito (Rio de Janeiro, Mauad, 1996), de Joel Silveira, no qual o jornalista consigna, com talento e graça, as recordações da viagem que fez com Jânio logo após a eleição de outubro de 1960.

Em 2013, o jornalista e pesquisador Bernardo Schmidt lançou a biografia Jânio – Vida e Morte do Homem da Renúncia.

A renúncia de Jânio por ele mesmo

A especulação mais recorrente sobre a sua renúncia é a de que ela representava mais um dos atos espetaculares característicos do estilo de Jânio. Com ela, o presidente pretenderia causar uma grande comoção popular e o Congresso seria forçado a pedir seu retorno ao governo, o que lhe daria grandes poderes sobre o Legislativo. Não foi o que aconteceu, porém. A renúncia foi aceita incontinenti e a população se manteve indiferente.

Muitos anos depois, o próprio ex-presidente declarou, em entrevista, sobre aquele gesto dele que deixou o país perplexo:

– Deodoro da Fonseca renunciou; Ruy Barbosa renunciou; Getúlio renunciou. De modo que estou muito bem acompanhado num país em que não se renuncia a nada.

Foi este o Jânio Quadros que o Brasil conheceu!

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