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21 de abril de 2024
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Dondon, um jornalista de tirar o sossego

Dondon, por Arnaldo Albuquerque.

Ele costumava dizer que não daria trabalho aos amigos, porque morava perto da cadeia, do hospício e do cemitério.

Até o final da primeira metade do século 20, os jornais de Teresina estampavam poesias, crônicas melosas, romances em rodapé, elogios fúnebres, batizados, artigos doutrinários e lavagens, denominação das baixas descomposturas endereçadas a adversários políticos, como relatou A. Tito Filho, um dos mestres do jornalismo e da literatura piauienses.

Entre os profissionais daquelas primeiras gerações de nossa imprensa, um sobressaiu-se pela originalidade e a irreverência: Antônio Santana Castelo Branco, o Dondon. 

Nascido em 1879, em Livramento, hoje município de José de Freitas, ele faleceu em 1953, em Teresina.  Hoje é um ilustre desconhecido na terra natal. Aliás, nas duas cidades. Na capital, seu nome só não é ainda mais anônimo por ter sido dado a uma rua do bairro Horto Florestal, na zona Leste.

“O Denunciante”

Tido como louco varrido, o jornalista agitou a Teresina do seu tempo e costumava dizer que não daria trabalho aos amigos, porque morava perto da cadeia, do hospício e do cemitério.

Em 1918, ele fundou o jornal O Denunciante, do qual era diretor, repórter, redator, tipógrafo, revisor, impressor e vendedor.

Seu jornal marcou época na década de 20, por ser um noticioso crítico, censor de costumes, espinafrador de políticos e administradores.

Refletia o espírito irrequieto, combativo, extravagante e polêmico de seu dono, que sofreu muitas retaliações em consequência da postura agressiva do seu jornal. Várias vezes foi preso.

Da cadeia para o hospício

Um dia, os poderosos de então o consideraram louco e, vingativamente, o puseram no Hospício dos Alienados, no Campo de Mártir – hoje Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu.

Imaginaram que, com o corretivo, ele recuaria nas censuras e espinafrações. Foi pior. Quando saiu do hospício, Dondon reapareceu mais violento.

Sem que lhe faltasse o esclarecimento identificador do parafuso frouxo, escreveu: “O dono deste jornal esteve recolhido ao Asilo dos Doidos, onde passou dez dias, seis por conta do governo e quatro por sua própria conta“.

Parente importante

Dondon era tio do renomado jornalista piauiense Carlos Castello Branco, o maior cronista brasileiro da segunda metade do século passado.

Com pena afiada, trazia a cidade em sobressalto, denunciando as suas faltas e as suas fraquezas mais íntimas.

Assim o retratou o poeta H. Dobal, no livro Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina, escrito em 1952, no centenário da cidade, e publicado somente em 1992, na administração do prefeito Heráclito Fortes, por sinal parente também de Dondon.

Os desertores de enterro

Antigamente, em Teresina, o defunto era conduzido ao cemitério com muita simplicidade. Não havia ainda carro funerário. Parentes e amigos mais próximos carregavam o esquife, a pé.

Atrás do caixão, iam os familiares e os amigos, conhecidos e admiradores do finado.

Dondon muito se preocupava com o acompanhamento. Em 1928, escreveu em seu jornal, para escândalo da cidade:

Na hora do enterro apresenta-se um aluvião de pessoas para acompanhar o defunto, porém logo no sair da porta começa a debandada de um, dois, aqui, ali e acolá, e quando chega do meio do caminho em diante é que a debandada é grande, chegando ao cemitério quase sem acompanhamento (…) Por qualquer motivo, nestes casos será melhor que lá não vá, e não ir somente aparentar (…) como tem acontecido nestes últimos enterros (…)“.

Em outra edição, escreveu: “No dia 6, morreu nesta capital e enterrou-se no dia 7, Dona Delmira Lobão Veras, mãe do médico Dr. Anfrísio Lobão, a quem o dono deste jornal apresenta pêsames extensivos aos demais parentes. Acompanharam o enterro 42 pessoas e voltaram do caminho 21. No próximo número serão publicados apenas os nomes das pessoas que chegaram ao cemitério“.

A lista, sempre aguardada com expectativa pelos leitores, ia variando conforme o finado e o humor do jornalista.

Em algumas ocasiões, ele publicava a relação dos que iam abandonando o cortejo fúnebre, indicando os locais exatos da debandada.

“Patrono da Imprensa”

Seu jornal trouxe tamanha inquietação que acabou empastelado, e suas máquinas foram parar nas águas do Rio Parnaíba. Mas ele não se entregou. Passou a tirá-lo manuscrito.

Era esse o velho Dondon de guerra, que lembro neste Dia da Imprensa como exemplo de um jornalista de verdade.

Ele bem merece o título de “Patrono da Imprensa Piauiense” que estamos a lhe dever!

(Por Zózimo Tavares, em 1º de junho de 2024). 

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