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“É o filho do Seu Chico!”

Da homenagem ao desembargador Meton, no TRT/PI.

Era 1982. No dia 21 de outubro, com 26 anos, ele tomava posse no cargo de juiz do Trabalho no TRT da 7ª Região, sediado em Fortaleza, e com jurisdição nos estados do Ceará, Piauí e Maranhão.

Como ele mesmo confessa, era um salto muito grande para as suas expectativas.

Àquela época, ele era empregado no Banco do Estado do Ceará e seus pais avaliavam que já estava muito bem encaminhado na vida.

Deixa que, escondido dos velhos, o jovem advogado estava tentando o concurso para juiz do Trabalho. Mas decidiu que só contaria aos pais se desse certo. E deu: foi aprovado em primeiro lugar!

Acontece que a burocracia empurrava a nomeação com a barriga e ele decidiu que faria a surpresa com a posse.

No dia da entrega da documentação para o TRT marcar o ato de posse, foi informado de que poderia fazer isso logo naquele mesmo dia. E decidiu incontinenti assumir o cargo que tanto desejava e pelo qual tanto lutara.

Mas ele teve que segurar a ansiedade por mais um tempo, ainda. Tudo pronto, mas a solenidade não começava.

Enquanto isso, os assessores da presidência corriam de um lado para o outro, dentro do Tribunal. Estavam atrás justamente de um paletó que servisse nele.

Susto

Quando se apresentou para trabalhar, no dia seguinte, foi cercado por repórteres de jornal, rádio e televisão.

Todos deram destaque à nomeação do novo juiz, por um detalhe que conto logo adiante.

Até então, sua família, residindo em Coreaú, no interior do Ceará, não sabia de nada.

Seu pai, Francisco Rodrigues de Lima, o Seu Chico, gostava de assistir ao Jornal Nacional, através da TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo no Ceará.

E o Jornal Nacional era antecipado pelo noticiário estadual, com a chamada:

“Veja daqui a pouco: um ex-agricultor é o juiz mais novo do Brasil”. E foi juntando gente em torno da televisão…

Quando a reportagem foi enfim exibida, na última parte do telejornal, ele era o personagem principal.

Como a notícia ocupou o bloco inteiro, sua mãe, dona Maria Auta Conceição Marques de Lima, e alguns dos sete irmãos tiveram tempo de assistir.

A meninada da vizinhança correu na rua gritando: “É o filho do Seu Chico! É o filho do Seu Chico! É o filho do Seu Chico!”

Superação

Aí começava a carreira de magistrado de Francisco Meton Marques de Lima, que trabalhou na roça até a adolescência.

Ele deixou a labuta no campo em 1973, aos 16 anos, para cursar na cidade uma série do ensino fundamental.

E cursou todo o antigo ensino primário, o 2º grau e o nível superior em apenas oito anos. Sempre em escola pública.

Durante o ensino básico, tomava conta de um bar de seu pai. Estudava debaixo do balcão, nas horas sem movimento.

No vestibular, foi aprovado em terceiro lugar para o Curso de Direito da UFC.

Como na canção de seu conterrâneo Belchior, ele era apenas um rapaz latino-americano, baixinho e magrinho, que chegava à capital sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior.

Foi morar na Residência do Estudante Universitário. Concluiu o curso em três anos e meio.

Estagiou no Dnocs, na Defensoria Pública, na Justiça do Trabalho e no Conselho Penitenciário.

Foi pesquisador do Projeto Rondon, advogado estagiário, revisor de jornal e bancário. Tudo através de concurso.  

Livro

Em 1987, foi aprovado em concurso para professor da Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado e doutorado.

Sua história está sendo contada no livro “40 anos de magistratura e 35 de magistério superior”.

O livro foi lançado há poucos dias, no auditório do Tribunal Regional do Trabalho do Piauí, em solenidade na qual foi homenageado.

No livro, o desembargador e professor Meton conta sua história, incluindo sua vinda para o Piauí, em 1988. Aqui tornou-se professor da UFPI e de outras instituições.

Fundador do TRT Piauí

O destaque da obra é para a luta pela criação do TRT 22ª Região, do qual é o fundador.

“Decerto, tudo tem muito de muitos. Eu conto a minha parte”, avisa.

Como repórter, acompanhei o doutor Meton batendo perna e gastando saliva em defesa da criação do TRT.

Pouca gente acreditava na ideia, razão pela qual ele parecia um João Batista pregando no deserto.

Mas ele conseguiu atrair para a causa apoiadores de peso como o então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Piauí, Nildomar da Silveira Soares, e o deputado federal Paes Landim.

À época, registrei muitos de seus passos na imprensa local. A história pessoal do Dr. Meton e a causa que abraçava chamavam a atenção da imprensa local. E até nos sensibilizava.

Quando presidi o Sindicato dos Jornalistas do Piauí, entre 1991 e 1992, fizemos uma greve pelo piso e pela data-base da categoria, mais o anuênio de 2 por cento.

O Dr. Meton participou de algumas das negociações dos jornalistas com as empresas, como mediador.

A presença dele, como juiz do Trabalho, nessas mesas de negociações, dava credibilidade ao movimento. Conseguimos o atendimento de nossas reivindicações.

Além de elaborar os projetos da fase de criação e instalação do TRT do Piauí, em 1991, o Dr. Meton foi autor ainda dos projetos que resultaram nas leis federais criando a 3ª, 4ª e 5ª Varas do Trabalho de Teresina e das Varas de Floriano, Picos e Piripiri.

Rasteiras

O livro traz os bastidores da criação do TRT, sua composição inicial e as puxadas de tapete que seu idealizador sofreu.

Tudo contado em prosa agradável, com sabor literário, sem ressentimentos e até com graça.  

O autor dá conta, ainda, de Projetos de sua autoria, ou dos quais participou, que vingaram em leis, Emendas Constitucionais, Atos Normativos e Jurisprudência consolidada.

Também relaciona os livros publicados, quase todos na área jurídica, alguns transformados em referência nacional, com dezenas de reedições.

O desembargador Meton presidiu o TRT do Piauí, foi vice-presidente e corregedor mais de uma vez, além de diretor da Escola Judicial.

A história do filho do Seu Chico é inspiradora e deve ser conhecida por tantos que queiram vencer na vida pelo estudo e o trabalho.

Capa do livro do desembargador Meton

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