Mike Stricklin, um mestre
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Obituário Michael Lewis Stricklin

Professor Mike Stricklin

Por Gustavo Said (*)

O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. Michael Lewis Stricklin, nascido no Texas, Estados Unidos, em 28 de julho de 1944, nos deixou nesse 2 de setembro de 2022, sexta-feira, por volta de 19h15 no fuso horário do Brasil. Estava em casa, em Hillsboro, Oregon, acompanhado da família.

Mike, como era carinhosamente conhecido, era graduado em Literatura Inglesa e em Jornalismo pela Baylor (1966), tinha mestrado em Jornalismo pela Universidade da Califórnia (1972) e doutorado em Comunicação de Massa pela Universidade de Iowa (1977). Ele foi professor da Universidade de Nebraska-Lincoln entre 1977 e 2004, dedicando-se após isso à pesquisa e à docência na qualidade de professor visitante, especialmente na Universidade Federal do Piauí, instituição com a qual já mantinha contato, desde 1996, através de um programa de cooperação internacional subsidiado pelos Companheiros das Américas.

Na UFPI, ministrou disciplinas, orientou alunos, fez pesquisas e, com seu jeito sempre prestativo e solícito, contribuiu deveras para a qualificação do corpo docente e para o estabelecimento do programa de pós-graduação em Comunicação. Sua última atividade nesta universidade, uma palestra para alunos de mestrado em Comunicação sobre redes sociais e o futuro do jornalismo, aconteceu em 2018.

Infelizmente, não chegou a receber o título Doutor Honoris Causa aprovado em reunião do colegiado do curso de mestrado em Comunicação da UFPI no dia 29 de julho de 2022 e em fase de tramitação burocrática. Gentil, como sempre, na ocasião em que foi notificado de que seria agraciado com o título, um dia após seu aniversário de 78 anos, disse que fora o melhor presente e a maior honra que recebera. Não estava se referindo apenas à simbologia da láurea, mas fazia menção, sobretudo, ao fato de que seus amigos da UFPI reconheciam o esmero com que se dedicou à instituição.

Mike recebeu várias outras condecorações: Comenda Grand Cruz do Mérito Judiciário (2011), Ordem Estadual do Mérito Renascença do Piauí (2006), Cidadania de Teresina (2004), Prêmio de Docência Distintiva da Fundação Amoco (1986), Prêmio de Docência Distintiva da Fundação Martha e Gilbert Hitchock (1984), Prêmio de Reportagem Investigativa da Texas Associated Press Managing Editors (1983) e Docente Distintivo da Frank E. Gannett Foundation (1977).

Formado na tradição clássica do jornalismo, Mike compreendia o jornalista como um arguto contador de histórias, um tipo profissional inquieto e sempre atento aos fatos à sua volta, zeloso da ética e ciente de seu papel social. De formação generalista, Mike era capaz de discutir muitos assuntos, sob diferentes perspectivas teóricas, transitando por várias áreas e disciplinas científicas. Seus trabalhos com base na Metodologia Q, criada pelo físico e psicólogo inglês William Stephenson, são exemplos claros da forma complexa e transdisciplinar com que procurava compreender comportamentos, sociabilidades e subjetividades, apontando sempre para questões mais amplas, da ordem da política e da cultura.

Ao longo de sua vida, o professor Mike concluiu 63 orientações de mestrado e escreveu vários capítulos de livros e artigos científicos. No período em que morou em Teresina, de 2005 a 2015, Mike participou de vários grupos e confrarias e se engajou em muitos projetos sociais e filantrópicos.

Ele deixa mulher (Chere), dois filhos (Woods e Robin), quatro netos e uma bisneta. Deixa também uma infinidade de amigos aqui no Brasil, nos Estados Unidos e em muitos outros países. E ainda uma legião de jornalistas e professores que tiveram o prazer de conviver com ele em sala de aula ou fora dela.

Brasileiro por opção, nordestino por afinidade, piauiense por afeição e, enfim, teresinense por identificação, Mike deixou um lastro de amizade que perdurará por muito tempo, uma vez que transitava entre grupos de distintos estratos sociais com a desenvoltura de um nativo. Era admirável seu esforço para adentrar, sem medo de cometer erros, na difícil sintaxe do Português, idioma que achava sublime.

Não bastasse isso, Mike via na língua um sinal de pertencimento a um grupo e, por isso, quase sempre, nos encontros fortuitos do cotidiano, fazia questão de entoar frases rítmicas, próprias da fonética nordestina, com seus neologismos e expressões quase dialetais, acentuadas por um sotaque texano. Às vezes, costumava se apresentar como Miguel, numa forma de tradução livre de seu nome para o Português, essa língua que, ressalte-se, ele tanto admirava, com especial destaque para a palavra saudade, sem equivalente preciso na língua inglesa.

Mike, era, de fato e de direito, piauiense e teresinense. O mais piauiense dos americanos se sentia mais piauiense do que muitos nascidos nesse Estado. E por aqui, certamente, além de muita saudade, deixará um legado de vida e um exemplo a ser seguido.

A depender do que disse Jorge Luis Borges, os incontáveis amigos do professor Mike terão muito o que contar sobre a história desse talentoso professor que não cansava de declarar seu amor pelo Brasil e pelo Piauí. Sobreviverá em cada um dos que o conheceram a feliz lembrança do professor Mike, até que, sucessivamente, se vá um, mais um, depois outro, até o último…

P.S. Permito-me aqui uma espécie de licença para dizer o quanto foi difícil escrever esse texto e, ao mesmo tempo, o quanto me senti honrado em fazê-lo. Obrigado, Mike. Do seu amigo e aluno Gustavo Said.

(*) Gustavo Said é jornalista, doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal do Piauí. Texto publicado originalmente no Facebook, na página do autor.

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