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Barão de Itararé, o Rei do Humor Brasileiro

O jornalista e escritor Barão de Itararé, durante entrevista ao jornal “Última Hora”. (Foto: Acervo UH/Folhapress)

Tem algo no ar além dos aviões de carreira”.

Pouca gente sabe que esta máxima, dita sempre quase sussurrada e que a rigor não quer dizer nada, mas que serve para tudo, é uma das tantas criadas pelo genial Barão de Itararé.

Correndo de boca em boca, elas atravessaram as décadas, caíram no gosto popular e foram incorporadas ao anedotário nacional.

São muitas as sacadas e as histórias que cercam esse nobre do humor, nascido no Rio Grande do Sul, em dia 29 de janeiro de 1895, e registrado com o nome de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly.

A mãe, Maria Amélia, era filha de um estadunidense descendente de russos. O pai, João Aparício Torelly, filho de um italiano com uma gaúcha. “Uma verdadeira Liga das Nações”, brincava Aparício Torelly.

No dia do seu nascimento, a família estava na fazenda do seu avô, no Paraguai. A mãe começou a sentir as dores do parto e foi transportada às pressas para o Rio Grande em uma diligência.

Como chegou ao mundo dentro dessa diligência, no meio do caminho, o barão dizia que nasceu em trânsito.

Hoje faz 50 anos de sua morte, ocorrida em 27 de novembro de 1971, no Rio de Janeiro.

Cobra criada

Aparício era um menino endiabrado e destinado a fazer gozação com todo mundo. Levou uma vida de muitas peripécias, puxou cadeia, mas nunca perdeu a graça.

Aos 7 anos, fundou seu primeiro jornal, o “Capim Seco”. Era um único exemplar, escrito à mão. Foi apreendido e proibido de circular pelo diretor da escola.

A ilustração do jornalzinho era uma cobra de batina. O padre reitor do colégio tinha o apelido de Jararaca.

Aparício, já Torrely, queria ser advogado, mas o pai o mandou estudar medicina.

Ele não gostava muito de estudar, porém lia tudo: Buda, Confúcio, Maomé, Keppler, Galileu, Newton, Karl Marx.

No jornalismo profissional

Ainda muito jovem, começou a escrever no jornal “Última Hora”, de Porto Alegre, e foi jornalista pela vida inteira.

Na imprensa, criou uma escola de humor, a partir da segunda década do século 20.

O jornalista mudou-se para o Rio de Janeiro em 1925, e foi trabalhar no jornal “O Globo”, contratado pelo seu fundador, Irineu Marinho.

Com a inesperada morte deste, brigou com o herdeiro, Roberto Marinho, e aceitou convite de Mário Rodrigues Filho, irmão do escritor Nelson Rodrigues, para trabalhar no jornal “A Manhã”, de propriedade de Mário Rodrigues, o pai.

Passou a escrever uma coluna intitulada “A manhã tem mais…”

O próprio jornal

Depois, criou o seu próprio jornal, A Manha – uma alusão, é óbvio, ao jornal “A Manhã”.  

Em pouco tempo, seu tabloide superou em tiragem veículos mais antigos e bem conhecidos, como “O Malho”, “Fon-Fon” e “A Careta”.

Em 1929, “A Manha” passou a circular como encante semanal do jornal “O Diário da Noite”, pertencente à cadeia dos Diários e Emissoras Associados, do magnata das comunicações Assis Chateaubriand.

O sucesso foi estrondoso. Mas o jornalista brigou com o “sócio” poderoso e com muita gente mais e passou a viver uma fase difícil, principalmente nas finanças.

“Entre sem bater”

As gozações com as autoridades lhe renderam várias ameaças, concretizadas após a “Revolução de 30”, quando editava o “Jornal do Povo”, pela publicação da história da Revolução da Chibata, ocorrida na Marinha em 1910, liderada pelo “Almirante Negro”, João Cândido.

Foi sequestrado, apanhou, rasparam-lhe a cabeça e o deixaram nu num local deserto. Não recuou. Na porta da sala da redação, colocou uma placa “Entre sem bater”, numa alusão à repressão de que fora vítima.

A origem do título de nobreza

O pseudônimo Barão de Itararé tem origem num boato ocorrido durante o levante de 1930.

Quando a tropa rebelde se deslocava do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, dizia-se que a força governamental esperava para o confronto armado em Itararé, divisa de São Paulo com Paraná.

Não houve a batalha, mas Torelly a relatou ironicamente nos pormenores. E foi mais longe: jurou que tinha sido herói nesta luta e, por isso, merecia o título de “Duque de Itararé”.

Depois, ele rebaixou o título para “Barão de Itararé”, “simplesmente por modéstia”.

Na prisão

Na prisão, foi companheiro de cela do escritor Graciliano Ramos, que faz menção a este fato em seu livro “Memórias do Cárcere”.

O barão contava que, durante sua prisão, “A Manha deixou de circular e eu com ela”.

Solto, relançou o jornal, que voltou a circular em 1944, em nova fase, tendo entre seus colaboradores gente de peso como Álvaro Lins, José Lins do Rego e Rubem Braga.

Na política

Com a redemocratização, candidatou-se a vereador pelo PCB no Rio de Janeiro, em 1947.

Naquela época, o leite era comercializado in natura e “batizado” com água, para aumentar.

O barão foi eleito tendo como slogan de campanha “Mais água e mais leite e menos água no leite!

Seu mandato foi dedicado às causas populares, a exemplo da defesa dos indígenas e do voto dos analfabetos. Era a atração das sessões.

Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB, o descreveu assim: “O Barão, com seu espírito, não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as sessões da Câmara, que eram transmitidas pelo rádio”.

O mandato durou pouco. O governo cassou o registro do PCB, em 1947, mesmo ano da eleição de Torelly.

No ano seguinte, foram declarados extintos os mandatos dos parlamentares eleitos pelo Partido Comunista do Brasil.

O Barão discursou na tribuna apresentando suas despedidas: “Saio da vida pública para entrar na privada”.

Quando veio o golpe de 1964, o Barão já estava doente. Dizia: “Antigamente, minhas pernas levavam meu corpo. Agora, é o meu corpo que arrasta as minhas pernas”.

Para o escritor Jorge Amado “mais do que pseudônimo, Barão de Itararé foi um personagem vivo e atuante, uma espécie de dom Quixote nacional, malandro, generoso e gozador, a lutar contra as mazelas e os mal feitos”.

Biografias do Barão

Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou “Barão de Itararé — O Humorista da Democracia” (Brasiliense, 72 páginas).

Quatro depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o opúsculo “Barão de Itararé — Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas).

Em 2012, o jornalista Cláudio Figueiredo lançou a biografia “Entre sem Bater: a Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé” (Casa da Palavra, 479 páginas).

Herói de três séculos

O Barão brincava muito com a Academia Brasileira de Letras. Afirmava que, para um escritor entrar no sodalício, precisava apenas esperar um imortal se contradizer e morrer.

Apparício Torelly não entrou na Academia, mas tornou-se verdadeiro imortal.

O jornalista Mouzar Benedito, sósia e admirador do humorista, brincou: “O Barão de Itararé se dizia ‘herói de dois séculos’ porque nasceu em 1895. Pois esse segundo século está no fim e o Barão continua atual. Ao que parece, vai penetrar através de suas máximas e mínimas no século 21 também e virar herói de três séculos”. Virou.

MÁXIMAS E MÍNIMAS DO BARÃO

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.

Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.

O fígado faz muito mal à bebida.

O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

 O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.

Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.

Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!

Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.

Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Quem não muda de caminho é trem.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…

Foto com o poeta Manuel Bandeira, à esquerda (1966) – Imagem: Arquivo Nacional

2 Comments

  1. “O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.” ESSA FRASE TAMBÉM COMBINA, COM O SILAS FREIRE!!!!

  2. Pimentel disse:

    Muito bom este seu artigo sobre o Barão de Itararé. Parabéns. Como não sou da área das letras e/ou comunicação, meu ponto de vista é de pouco valor. Mesmo assim me arrisquei a expressa-lo, porque o humor é essencial para a vida.
    Tem uma máxima do Barão, que gosto muito, é mais ou menos assim: “os homens se assemelham muito aos cofres, quando chacoalhados, os mais vazios são os mais barulhentos”! Possui um teor parecido com esta do tambor que você escolheu. Ele deixou um livro com alguns milhares de máximas!

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