
NAS ONDAS DO RÁDIO (8) – Breve história da Difusora (3)
19 de setembro de 2026Por 40 anos, estive sempre dentro de uma redação.
Quando ingressei na redação do jornal O DIA, o maior do Piauí, em agosto de 1980, deparei-me com um ambiente que me impressionou.
O tempo correu, mas as cenas desfilam nítidas em minhas lembranças: o converseiro sem fim dos jornalistas; o matraquear das máquinas de escrever, o toque estridente do telefone…
De vez em quando, a entrada de uma personalidade importante na ampla sala para uma entrevista.
Aos 18 anos, eu estava frente a frente ou lado a lado de profissionais do jornalismo os quais eu só conhecia de nome.
Fui imediatamente acolhido por vários deles, especialmente pelo editor-chefe, Francisco Leal.
Em pouco tempo, estava entrosado com a maioria. Todos foram importantes em minha formação profissional.
Uma mulher e seu tempo
Uma pessoa, em particular, me chamava a atenção pelo seu despojado e frenético modo de trabalhar: Elvira Raulino.
Ela já portava o título de “Papisa do Colunismo Social do Piauí”, dado pelos próprios colegas.
Quando ela chegava à redação, era um acontecimento: falava com todo mundo, agitava o ambiente, jogava as sandálias para um lado e ia para a sua mesinha.
Dividia-se entre a máquina de escrever e o telefone, que não parava de tocar.
Carregava suas anotações em vários pedacinhos de papel. Daí, com apenas dois dedos, datilografava em tempo-relâmpago toda a sua coluna.
Emancipação feminina
Quando os pesquisadores mergulharem no túnel do tempo e escavarem a história de seu tempo sem o viés ideológico e os preconceitos que orientam a maioria desses trabalhos, constatarão sem dificuldade que Elvira Raulino foi uma das pioneiras na luta pela emancipação feminina.
Não sei se ela própria tinha consciência disso. O que sei é que Elvira foi muito de tudo – e quase sempre uma mulher pioneira.
Entregou-se de corpo e alma a tudo que abraçou: ao jornalismo, com intensa atuação no rádio, em jornal e na televisão; ao esporte, como jogadora de futebol; à política, organizando alas femininas de partidos políticos e disputando mandatos eletivos, sendo, por fim, eleita prefeita de sua terra, Altos.
Também foi produtora e organizadora de megaeventos; incentivadora do turismo, da arte e da cultura piauienses; empresária; projetou-se nacionalmente como jurada do Programa do Chacrinha…
Conheceu o mundo, navegou pelos sete mares.
Irreverente, polêmica, indomável, sem papas na língua, mas um coração generoso, que viveu intensamente também os seus amores, a sua família e as suas amizades.
Fora de cena
Essas lembranças e reflexões me chegam a propósito da passagem, hoje (21/09), Dia do Radialista, dos 80 anos de nascimento de Elvira Raulino, que serão celebrados pela família e pelos amigos no Clube dos Diários.
Há uns 15 anos ela está fora das redações. Interrompeu a lida para batalhar contra a doença que desde então vem apagando impiedosamente sua memória.
Todos nós que acompanhamos de perto sua luta incansável buscamos compreensão para os reveses da vida, estamos em festa pela chegada de seus 80 anos e aplaudimos sua bela história!
Viva Elvira!

Elvira Raulino no Programa do Chacrinha / Imagem: Acervo da família.
