{"id":605,"date":"2021-08-25T11:18:46","date_gmt":"2021-08-25T14:18:46","guid":{"rendered":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/?p=605"},"modified":"2021-08-25T11:30:43","modified_gmt":"2021-08-25T14:30:43","slug":"os-60-anos-da-renuncia-de-janio-um-salto-no-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/2021\/08\/25\/os-60-anos-da-renuncia-de-janio-um-salto-no-escuro\/","title":{"rendered":"Os 60 anos da ren\u00fancia de J\u00e2nio, um salto no escuro"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil lembra hoje os 60 anos da ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros. O inesperado gesto do presidente jogou o pa\u00eds em uma crise pol\u00edtica e institucional sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, a revista Cidade Verde publicou uma reportagem especial que fiz sobre ele, na passagem do centen\u00e1rio do seu nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto descreve a mete\u00f3rica carreira pol\u00edtica de J\u00e2nio, a humilhante derrota que imp\u00f4s ao presidente mais popular da hist\u00f3ria, JK, e o cavalo de pau que ele deu quando chegou ao Planalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m mostra a sua figura beligerante, sem apre\u00e7o aos partidos e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, moralista, corajosa e golpista.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena a (re) leitura do texto, para lembrar ou conhecer o pol\u00edtico personalista, populista e inteligente que foi o ex-presidente, h\u00e1bil na arte de espalhar brasa com os p\u00e9s e de cuspir fogo pelas palavras:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"686\" src=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-1024x686.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-606\" srcset=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-1024x686.jpg 1024w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-300x201.jpg 300w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-768x515.jpg 768w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-1536x1030.jpg 1536w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-218x146.jpg 218w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-50x34.jpg 50w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio-112x75.jpg 112w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/janio.jpg 1550w\" sizes=\"auto, (max-width:767px) 480px, (max-width:1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>ESPECIAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e2nio Quadros: os 100 anos de um pol\u00edtico incomum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Z\u00f3zimo Tavares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pol\u00eamico, misterioso, revolucion\u00e1rio, culto, imprevis\u00edvel, autorit\u00e1rio, estadista, populista, direitista, carreirista, pern\u00f3stico, reacion\u00e1rio e louco. Estas e outras facetas do ex-presidente J\u00e2nio Quadros, mais a de que era tamb\u00e9m dado a porres hom\u00e9ricos, ser\u00e3o lembradas e acentuadas ao longo deste ano, na passagem do centen\u00e1rio do pol\u00edtico mais controvertido que o Brasil conheceu. V\u00e1rias reportagens especiais ser\u00e3o feitas e muitos livros sobre sua vida e sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica ser\u00e3o lan\u00e7ados e relan\u00e7ados.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Orador teatral, J\u00e2nio Quadros despertava empatia e envolvia as massas. Mestre em portugu\u00eas, geografia e hist\u00f3ria. A imprensa e as lideran\u00e7as pol\u00edticas de seu tempo tentaram pint\u00e1-lo com tintas caricaturais. Ele estava pouco se lixando para os que procuram ridiculariz\u00e1-lo como uma personagem folcl\u00f3rica da pol\u00edtica nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e2nio Quadros, pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 dava muni\u00e7\u00e3o aos advers\u00e1rios. Em com\u00edcios, ele jogava p\u00f3 sobre os ombros para simular caspa, de modo a parecer um &#8220;homem do povo&#8221;. Tamb\u00e9m tirava do bolso sandu\u00edches de mortadela e os comia em p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>No poder, proibiu as brigas de galo e o uso de lan\u00e7a-perfume, criando pol\u00eamicas com quest\u00f5es menores, que o mantinham sempre em evid\u00eancia, como um presidente preocupado com o dia a dia do brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s daquela figura ex\u00f3tica de homem p\u00fablico, estava um pol\u00edtico astuto, austero e arrojado. Um governante que sabia exercer o poder em sua plenitude. Al\u00e9m disso, o homem culto, poliglota, que escrevia e falava fluentemente em ingl\u00eas, franc\u00eas, espanhol e italiano. Viajou o mundo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que qualquer outro pol\u00edtico brasileiro, conheceu e gozou da amizade ou do relacionamento com os maiores estadistas e governantes de sua gera\u00e7\u00e3o; de John Kennedy a Krustchev; de Churchill \u00e0 rainha Elizabete II; de Fidel Castro a Kadafi; de Nasser a Golda Meir; de De Gaulle a Miterrand; de Salazar a Franco; de Pio XII a Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nasceu com a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e2nio da Silva Quadros tinha tudo para ser explosivo, como o foi pela vida inteira. Ele nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso, em 25 de janeiro de 1917, ano de gigantescas turbul\u00eancias pelo mundo, a maior delas a eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Foi criado em Curitiba, onde fez o ensino b\u00e1sico. Mudou-se ainda jovem para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi professor e advogado, antes de se tornar pol\u00edtico, em 1947, quando assumiu o mandato de vereador de S\u00e3o Paulo, pelo Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC), tendo por base eleitoral o operariado do bairro Vila Maria. E da\u00ed para a frente n\u00e3o chegou a cumprir integralmente nem um dos mandatos para os quais se elegeria.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e2nio passou na C\u00e2mara Municipal at\u00e9 1950, e ficou conhecido como o maior autor de proposi\u00e7\u00f5es, projetos de lei e discursos de todas as casas legislativas do pa\u00eds no per\u00edodo. Tamb\u00e9m assinou a grande maioria das propostas e projetos considerados favor\u00e1veis \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir, foi consagrado como o deputado estadual mais votado, com mandato entre 1951 e 1953. Na sequ\u00eancia, elegeu-se prefeito do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, o que caracterizou uma grande fa\u00e7anha pol\u00edtica, pois enfrentou um enorme arco de partidos, assim composto: PSP-PSD-UDN-PTB-PRP-PR-PL.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa poderosa coliga\u00e7\u00e3o registrou a candidatura do professor Francisco Antonio Cardoso, que tinha uma campanha milion\u00e1ria, com uma enxurrada de material de propaganda e com apoio ostensivo das m\u00e1quinas municipal e estadual.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, o PDC&nbsp;e o PSB&nbsp;lan\u00e7am J\u00e2nio Quadros, com poucos recursos financeiros. E ele come\u00e7ou tirando partido da situa\u00e7\u00e3o. Sua campanha foi chamada de&nbsp;<em>o \u2018tost\u00e3o contra o milh\u00e3o\u2019<\/em>. Exerceu a fun\u00e7\u00e3o de 1953 a 1955, licenciando-se do cargo, em 1954, para concorrer ao Governo do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 fora do PDC, filiou-se ao Partido Trabalhista Nacional (PTN) e foi candidato da alian\u00e7a PTN-PSB&nbsp;a governador de S\u00e3o Paulo. Venceu o pleito. Ele derrotou o favorito Ademar de Barros (um de seus maiores rivais pol\u00edticos) por uma pequena margem de votos, de cerca de 1%. Sua gest\u00e3o foi entre 1955 e 1959.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o mandato, procurou executar a\u00e7\u00f5es que passassem uma imagem de moraliza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Era comum ele fazer visitas de surpresa \u00e0s reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a fim de verificar a qualidade do servi\u00e7o oferecido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m adotou uma a\u00e7\u00e3o empreendedora que buscava destaque e proje\u00e7\u00e3o, seja na cria\u00e7\u00e3o de novos servi\u00e7os e \u00f3rg\u00e3os ou na constru\u00e7\u00e3o de grandes obras. Assim, angariou grande popularidade e se consagrou como um l\u00edder entre os paulistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cHomem da Vassoura\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a popularidade em alta, a ida de J\u00e2nio para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica foi um salto. Assim, ele entrou para a hist\u00f3ria como o pol\u00edtico que fez a carreira mais mete\u00f3rica de seu tempo. Em 13 anos, ele foi de vereador a presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de chegar ao Planalto, como fen\u00f4meno eleitoral, ele elegeu-se ainda deputado federal pelo estado do Paran\u00e1, em 1958, mas viajou para o exterior e n\u00e3o p\u00f4s os p\u00e9s em nenhuma das sess\u00f5es do Congresso. S\u00f3 apareceu l\u00e1 para tomar posse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao retornar ao Brasil, preparou sua candidatura \u00e0 presid\u00eancia, com apoio da&nbsp;incendi\u00e1ria  Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional&nbsp;(UDN). Conquistou grande parte do eleitorado prometendo combater a corrup\u00e7\u00e3o e usando uma express\u00e3o por ele criada: varrer toda a sujeira da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Seu s\u00edmbolo de campanha era uma vassoura. Utilizou como mote da campanha o &#8220;varre, varre vassourinha, varre a corrup\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi eleito o 22\u00ba presidente, em 3 de outubro de 1960, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milh\u00f5es de votos, considerada a maior vota\u00e7\u00e3o obtida no Pa\u00eds at\u00e9 ent\u00e3o. Ele venceu por uma diferen\u00e7a de mais de 2 milh\u00f5es de votos o marechal Henrique Lott, ex-ministro da Guerra. Uma vit\u00f3ria espetacular, pois ele estava derrotando um candidato que gozava de alto conceito na Rep\u00fablica e que fora apresentado pelo presidente Juscelino Kubitschek, no auge de sua popularidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, as regras eleitorais estabeleciam chapas independentes para a candidatura a vice-presidente. Por esse motivo, Jo\u00e3o Goulart, o vice de JK e l\u00edder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), foi reeleito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma sucess\u00e3o de crises<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em seu governo, J\u00e2nio Quadros atuou com algumas frentes que causaram muita pol\u00eamica e que s\u00e3o lembradas at\u00e9 hoje. Ele deu continuidade \u00e0 pol\u00edtica internacional, restabelecendo rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e comerciais com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a China, algo impens\u00e1vel dentro da geopol\u00edtica de ent\u00e3o, que dividia o planeta em dois gigantescos p\u00f3los ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m nomeou o primeiro embaixador negro da hist\u00f3ria do Brasil e homenageou Che Guevara com a mais alta condecora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a Ordem do Cruzeiro do Sul. J\u00e2nio criou as primeiras reservas ind\u00edgenas, como o Parque Nacional do Xingu, e os primeiros parques ecol\u00f3gicos nacionais, entre eles o de Sete Cidades, no Piau\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele teve tamb\u00e9m atitudes prosaicas na presid\u00eancia. Governava por bilhetinhos e chegou a proibir as rinhas de galo, o uso de biqu\u00edni em concursos de miss que fossem televisionados e o lan\u00e7a-perfume em bailes de carnaval. E ainda regulamentou o jogo de carteado. Essas medidas continuam em vigor at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um salto para o golpe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais r\u00e1pida que a ascens\u00e3o, foi a queda de J\u00e2nio. Ele fez um governo-rel\u00e2mpago, em seu curto mandato de presidente, de 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961, quando renunciou. At\u00e9 hoje sua ren\u00fancia n\u00e3o foi completamente esclarecida. A resposta para o seu surpreendente gesto desafia os historiadores. H\u00e1 quem avalie que ele renunciou em busca de mais poder, pois seu plano original seria retornar nos bra\u00e7os do povo. H\u00e1 tamb\u00e9m uma vers\u00e3o, pendendo mais para o humor, de que ele estava de porre.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato, no entanto, \u00e9 que em sua breve gest\u00e3o de apenas sete meses, J\u00e2nio Quadros praticou uma pol\u00edtica econ\u00f4mica e uma pol\u00edtica externa que desagradou profundamente os pol\u00edticos que o apoiavam, setores das For\u00e7as Armadas e outros segmentos sociais.<br>Sua ren\u00fancia, que ele pr\u00f3prio atribuiu a \u201cfor\u00e7as terr\u00edveis\u201d, desencadeou uma crise institucional sem precedentes na hist\u00f3ria republicana do pa\u00eds, porque a posse do vice-presidente Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o foi aceita pelos ministros militares nem pelas classes dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desafiando as \u201cfor\u00e7as terr\u00edveis\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O governo de J\u00e2nio Quadros perdeu sua base de apoio pol\u00edtico e social a partir do momento em que adotou uma pol\u00edtica econ\u00f4mica austera e uma pol\u00edtica externa independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea econ\u00f4mica, o governo se deparou com uma crise financeira aguda causada por intensa infla\u00e7\u00e3o, d\u00e9ficit da balan\u00e7a comercial e crescimento da d\u00edvida externa. O governo adotou medidas dr\u00e1sticas, restringindo o cr\u00e9dito, congelando os sal\u00e1rios e incentivando as exporta\u00e7\u00f5es.<br>Mas foi na \u00e1rea da pol\u00edtica externa que o presidente J\u00e2nio Quadros acirrou os \u00e2nimos da oposi\u00e7\u00e3o ao seu governo. J\u00e2nio nomeou para o minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar radicalmente os rumos da pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil come\u00e7ou a se aproximar dos pa\u00edses socialistas. Um passo desafiador foi o restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS), \u00e0 \u00e9poca a segunda pot\u00eancia mundial, em confronto permanente com os Estados Unidos.<br>Atitudes de menor import\u00e2ncia tamb\u00e9m tiveram grande impacto, como as condecora\u00e7\u00f5es oferecidas pessoalmente por J\u00e2nio ao guerrilheiro revolucion\u00e1rio Ernesto \u201cChe\u201d Guevara&nbsp;e ao cosmonauta sovi\u00e9tico Yuri Gargarin, al\u00e9m da vinda ao Brasil do ditador cubano Fidel Castro.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Ren\u00fancia foi uma den\u00fancia<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para seguidores de J\u00e2nio, como Gastone Righi, deputado federal (j\u00e1 falecido) por quatro legislaturas por S\u00e3o Paulo e ex-presidente nacional do PTB, n\u00e3o houve uma ren\u00fancia, mas sim uma den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A den\u00fancia, segundo ele, era a de que o pa\u00eds era ingovern\u00e1vel. O sistema pol\u00edtico, as organiza\u00e7\u00f5es administrativas e do estado, a Constitui\u00e7\u00e3o e as institui\u00e7\u00f5es eram todos modelos importados, sem qualquer efic\u00e1cia ou qualquer funcionalidade para o pa\u00eds e o resultado s\u00f3 poderia ser o caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se foi uma den\u00fancia, ela n\u00e3o encontrou eco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Preso pela ditadura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acusado de direitista pela esquerda brasileira, J\u00e2nio n\u00e3o era bem visto, no entanto, pelos militares que tomaram o poder em 1964. Ele foi um dos tr\u00eas ex-presidentes a ter seus direitos pol\u00edticos cassados, ao lado de Jo\u00e3o Goulart&nbsp;e&nbsp; Juscelino Kubitschek.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s fazer declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa em Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, em julho de 1968, o ex-presidente foi detido pelo Ex\u00e9rcito brasileiro, por ordem do ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a,&nbsp; Gama e Silva. Ficou confinado em Corumb\u00e1, cidade situada no&nbsp; Pantanal Sul-matrogrossense, na fronteira com a Bol\u00edvia. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e2nio recuperou os direitos pol\u00edticos em 1974, mas manteve-se afastado das urnas inclusive nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de&nbsp;1978, ano em que seus simpatizantes (agrupados sob o denominado &#8220;Movimnto Popular J\u00e2nio Quadros&#8221;) o levaram a visitar o bairro paulistano de Vila Maria, tradicional reduto &#8220;janista&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O uso da mes\u00f3clise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e2nio Quadros era um especialista em l\u00edngua portuguesa, e um mestre na coloca\u00e7\u00e3o dos pronomes, em especial os obl\u00edquos. Um frasista inspirado (\u201c<em>O povo ser\u00e1 a um tempo minha b\u00fassola e o meu destino<\/em>.\u201d; \u201c<em>Bebo-o porque \u00e9 l\u00edquido, se fosse s\u00f3lido com\u00ea-lo-ia<\/em>.\u201d; \u201c<em>Intimidade demais provoca duas coisas que odeio: filhos e aborrecimentos<\/em>.\u201d )<\/p>\n\n\n\n<p>Seu modo de falar, encandindo as s\u00edlabas, fazia com que suas frases ficassem para sempre gravadas na mem\u00f3ria do interlocutor. E muitas ca\u00edram tamb\u00e9m no anedot\u00e1rio nacional, como a \u201c<em>fi-lo porque qui-lo<\/em>\u201d, sobre sua ren\u00fancia. Deixou uma obra liter\u00e1ria. Seu dicion\u00e1rio, sua gram\u00e1tica e sua hist\u00f3ria do povo brasileiro s\u00e3o trabalhos que se inserem na cultura nacional de todos os tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como lembrou o escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, J\u00e2nio foi um professor de um zelo inexced\u00edvel pela l\u00edngua portuguesa. \u201cEle marcou sua vida por uma sucess\u00e3o de surpresas, a come\u00e7ar pelas frases bem elaboradas, em que se divertia com a coloca\u00e7\u00e3o de mes\u00f3clises, em geral para significar o seu apre\u00e7o pela l\u00edngua\u201d, destacou.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-presidente faleceu em 16 de fevereiro de 1992, em S\u00e3o Paulo, onde viveu quase toda a sua vida, depois de sofrer v\u00e1rios AVC\u2019s. Tinha 75 anos. J\u00e1 havia se despedido da vida p\u00fablica e vivido tamb\u00e9m o seu entardecer na pol\u00edtica, depois de exercer o segundo mandato de prefeito da capital, de 1986 a 1989, derrotando nas elei\u00e7\u00f5es de 1985 o soci\u00f3logo Fernando Henrique Cardoso. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livros que falam de J\u00e2nio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde a morte de J\u00e2nio, em 1992, apareceram v\u00e1rios livros tentando &nbsp;jogar alguma luz sobre a lend\u00e1ria figura do ex-presidente. Em 1996, sa\u00edram tr\u00eas de uma s\u00f3 vez:&nbsp;<em>A Ren\u00fancia de J\u00e2nio<\/em>&nbsp;(Rio de Janeiro, Revan, 1996), do jornalista Carlos Castello Branco, que foi seu secret\u00e1rio de Imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi lan\u00e7ado <em>J\u00e2nio Quadros \u2013 Memorial \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil<\/em>&nbsp;(S\u00e3o Paulo, Rideel, 1996), cole\u00e7\u00e3o de artigos de e sobre J\u00e2nio, cujo ponto alto \u00e9 o texto de recorda\u00e7\u00f5es do neto do ex-presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro livro que foi bem recebido pela cr\u00edtica foi o <em>Viagem com o Presidente Eleito<\/em>&nbsp;(Rio de Janeiro, Mauad, 1996), de Joel Silveira, no qual o jornalista consigna, com talento e gra\u00e7a, as recorda\u00e7\u00f5es da viagem que fez com J\u00e2nio logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de outubro de 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, o jornalista e pesquisador Bernardo Schmidt lan\u00e7ou a biografia <em>J\u00e2nio \u2013 Vida e Morte do Homem da Ren\u00fancia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ren\u00fancia de J\u00e2nio por ele mesmo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A especula\u00e7\u00e3o mais recorrente sobre a sua ren\u00fancia \u00e9 a de que ela representava mais um dos atos espetaculares caracter\u00edsticos do estilo de J\u00e2nio. Com ela, o presidente pretenderia causar uma grande como\u00e7\u00e3o popular e o Congresso seria for\u00e7ado a pedir seu retorno ao governo, o que lhe daria grandes poderes sobre o Legislativo. N\u00e3o foi o que aconteceu, por\u00e9m. A ren\u00fancia foi aceita incontinenti e a popula\u00e7\u00e3o se manteve indiferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos anos depois, o pr\u00f3prio ex-presidente declarou, em entrevista, sobre aquele gesto dele que deixou o pa\u00eds perplexo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Deodoro da Fonseca renunciou; Ruy Barbosa renunciou; Get\u00falio renunciou. De modo que estou muito bem acompanhado num pa\u00eds em que n\u00e3o se renuncia a nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi este o J\u00e2nio Quadros que o Brasil conheceu!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil lembra hoje os 60 anos da ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros. 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