{"id":559,"date":"2021-07-19T13:00:15","date_gmt":"2021-07-19T16:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/?p=559"},"modified":"2021-07-19T22:01:20","modified_gmt":"2021-07-20T01:01:20","slug":"moacyr-andrade-o-jornalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/2021\/07\/19\/moacyr-andrade-o-jornalista\/","title":{"rendered":"Morre o jornalista Moacyr Andrade, aos 85 anos"},"content":{"rendered":"\n<p>Soube dele atrav\u00e9s de seu conterr\u00e2neo ilustre Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Moreno, nosso amigo comum. At\u00e9 ent\u00e3o, jamais ouvira falar em seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, foi assim que o humorista o apresentou a mim, mais ou menos em meados dos anos 90, quando ainda morava no Rio de Janeiro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle \u00e9 um grande jornalista e intelectual. Todo jornalista importante que conhe\u00e7o no Rio me diz: \u201cOlhe, eu conhe\u00e7o um grande jornalista l\u00e1 de sua terra\u201d&#8230; E citava o nome dele, Moacyr Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para voc\u00ea ter uma ideia, ele foi editor do \u201cCaderno B\u201d do Jornal do Brasil, nos \u00e1ureos tempos do JB, e membro do J\u00fari B, que escolhia o Disco do Ano. Sem d\u00favida, o mais rigoroso cr\u00edtico de m\u00fasica. Chegou a ter mais 30 mil discos na casa dele, na Tijuca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fuga em 64<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E dizia mais, para agu\u00e7ar meu interesse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO pai dele, seu M\u00e9rcio Andrade, exportador de cera de carna\u00faba, era o homem mais rico de Piripiri. E, muito jovem ainda, o Moacyr tinha ideias avan\u00e7adas sobre reforma agr\u00e1ria, essas coisas. Tamb\u00e9m tinha assinaturas de revistas de Cuba e n\u00e3o sei de onde mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando irrompeu o golpe de 64, a pol\u00edcia e o Ex\u00e9rcito bateram em Piripiri para prender um bocado de gente. Prenderam o Tarciso Cruz, o Ronald de Freitas, que depois foi secret\u00e1rio-geral do PCdoB, e botaram atr\u00e1s do Moacyr.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu M\u00e9rcio pegou uma Rural, entregou ao Milton Vieira e botou o Moacyr dentro. Eles pegaram a estrada de pi\u00e7arra e foram bater em Fortaleza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, por causa disso, por causa dessa fuga dele, seu M\u00e9rcio foi preso. Ficou umas horas l\u00e1 detido para dar conta do Moacyr e ele disse que n\u00e3o sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, seu M\u00e9rcio era o homem mais rico da cidade, latifundi\u00e1rio, recatado, respeitado, que n\u00e3o tinha nada a ver com comunismo, mas acabou preso nessa devassa que fizeram l\u00e1 em Piripiri.<\/p>\n\n\n\n<p>De Fortaleza o Moacyr ganhou o mundo. Ningu\u00e9m sabe pra onde ele foi. \u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O andarilho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De fato, da\u00ed para frente Moacyr Andrade tornou-se um andarilho, vagando pelo Brasil sem endere\u00e7o fixo por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhou em v\u00e1rios jornais do Paran\u00e1, de Pernambuco, de S\u00e3o Paulo e em outros do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 do&nbsp;<em>Jornal do Brasil<\/em>&nbsp;foi redator por mais de 30 anos. Foi colunista pol\u00edtico e de esportes. Por \u00faltimo, era cr\u00edtico de m\u00fasica popular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Visita a Piripiri<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uns dez anos, acompanhei Jo\u00e3o Cl\u00e1udio em visita a Piripiri especialmente para conhecer o jornalista. A cidade vivia o fervor dos festejos de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava na casa da fam\u00edlia, no Centro. Uma casa bonita, na verdade um palacete, constru\u00eddo em 1946, com a riqueza da cera de carna\u00faba. A casa ainda pertence \u00e0 fam\u00edlia e estava ocupada por uma irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Moacyr era filho de M\u00e9rcio Andrade e Rosa Resende (Rosita) e irm\u00e3o de Rita, Maria de Lourdes, Augusto C\u00e9sar Andrade (ex-procurador-geral de Justi\u00e7a do Piau\u00ed) e Maria Helena Andrade (ju\u00edza em Piripiri e residente na casa da fam\u00edlia).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entrevista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Cl\u00e1udio fez uma longa entrevista com Moacyr Andrade, ainda in\u00e9dita.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se pelo aparato quase cinematogr\u00e1fico que foi armado em uma sala da casa ou por outro motivo que desconhe\u00e7o, o fato \u00e9 que observei no veterano jornalista uma pessoa muito reservada. E cordial.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed para frente, Jo\u00e3o Cl\u00e1udio ficou sempre me dando not\u00edcias dele, como, por exemplo, a da comemora\u00e7\u00e3o de seus 80 anos, no Rio, na companhia dos irm\u00e3os. \u201cFoi todo mundo. A gente devia ter ido tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-564\" srcset=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-300x225.jpg 300w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-768x576.jpg 768w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-195x146.jpg 195w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-50x38.jpg 50w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2-100x75.jpg 100w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Moacyr-Andrade2.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width:767px) 480px, (max-width:1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Jo\u00e3o Cl\u00e1udio entrevista Moacyr Andrade, na casa onde nasceu, em Piripiri (2010)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A doen\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 poucos dias, o humorista me informou que Moacyr fora internado no Rio e que, no hospital, contraiu a Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Lutou pela vida at\u00e9 domingo \u00e0 noite (18\/07), vindo a falecer \u00e0s 23h30, aos 85 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A despedida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este o Moacyr Andrade do qual nos despedimos, com imenso pesar. Um piauiense grandioso e infelizmente pouco conhecido em sua terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sua irm\u00e3 Maria Helena, ele teve uma vida plena: \u201cTenho certeza de que est\u00e1 em paz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Cl\u00e1udio me passou hoje esta mensagem, sobre o amigo Moacyr Andrade:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEra um homem cheio de valores \u00e9ticos. Era calado, reservado, muito culto, simples, bonito. Tinha uma cultura cl\u00e1ssica enorme, mas n\u00e3o arrotava nenhum pedantismo cultural. Eu s\u00f3 consigo ver o Moacyr envolvo em luz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Que assim seja!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A hist\u00f3ria da Lapa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 1990, a Prefeitura do Rio de Janeiro publicou uma cole\u00e7\u00e3o de livros intitulada \u201cCantos do Rio\u201d, sobre os bairros mais emblem\u00e1ticos da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Moacyr Andrade foi convidado a escrever sobre a Lapa. Em 76 p\u00e1ginas de \u201cLapa, alegres t\u00f3picos\u201d, publicado em 1998, ele recomp\u00f5e magistralmente, com hist\u00f3ria e poesia, todo o cen\u00e1rio da mais afamada zona bo\u00eamia do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Este livro, considerado hoje uma obra-prima, chegou a mim pelas m\u00e3os justamente de Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Moreno. Um dos mais belos textos que j\u00e1 li.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis a sinopse que a editora <em>Relume <\/em>fez para a obra, no seu lan\u00e7amento:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Anos 20, bordel da Elvira. Zeca Patroc\u00ednio, Manuel Bandeira, Catulo da Paix\u00e3o Cearense e Heitor Villa-Lobos em um concerto de viol\u00e3o brasileiro. No mesmo cen\u00e1rio, em outra noite, Di Cavalcanti, &#8220;cansado de aventuras amorosas e com a boca amarga de \u00e1lcool&#8221;, se despede rumo \u00e0 Semana de Arte Moderna. Assim Moacyr Andrade come\u00e7a um passeio pelos alegres tr\u00f3picos da Lapa e atravessa noitadas e cantorias em botequins e cabar\u00e9s, com direito a uma parada no ateli\u00ea de C\u00e2ndido Portinari. O figurino \u00e9 o mesmo para todos os personagens: chap\u00e9u-do-chile, camisa de seda pura, gravata de tussot, sapatos de salto carrapeta e muitos an\u00e9is. O passeio s\u00f3 muda de rumo com a chegada dos marinheiros americanos da Segunda Guerra e suas vitrolas autom\u00e1ticas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Num painel constru\u00eddo de um s\u00f3 e poderoso f\u00f4lego, Moacyr Andrade apresenta a vasta constela\u00e7\u00e3o de intelectuais, artistas, mulheres, malandros, cabar\u00e9s e prost\u00edbulos que transformaram a Lapa num grande mito. Daqueles tempos, praticamente nada ficou. Por isso, s\u00f3 nos resta perambular com Moacyr Andrade pelas mesas, camas e tramas e continuar crendo que um dia, na Lapa, existiu uma vida noturna e bo\u00eamia t\u00e3o interessante como as de Montmartre, Pigalle ou Montparnasse, com a diferen\u00e7a de que nossos her\u00f3is se chamavam Camisa Preta, M\u00e1rio Lago, Ceci, Noel Rosa, Madame Sat\u00e3, Ant\u00f4nio Maria, Meia-Noite, Lucio Rangel, Carlos Lacerda, Wilson Batista e uma povoa\u00e7\u00e3o de mulheres para agradar a todos os paladares<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"375\" height=\"500\" src=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-562\" srcset=\"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa.jpg 375w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa-225x300.jpg 225w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa-110x146.jpg 110w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa-38x50.jpg 38w, https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lapa-56x75.jpg 56w\" sizes=\"auto, (max-width:767px) 375px, 375px\" \/><figcaption>Capa do livro sobre a hist\u00f3ria da Lapa, de Moacyr Andrade.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soube dele atrav\u00e9s de seu conterr\u00e2neo ilustre Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Moreno, nosso amigo comum. 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