{"id":519,"date":"2021-06-08T13:24:07","date_gmt":"2021-06-08T16:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/?p=519"},"modified":"2025-09-07T07:55:01","modified_gmt":"2025-09-07T10:55:01","slug":"a-linguagem-torta-de-torto-arado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/2021\/06\/08\/a-linguagem-torta-de-torto-arado\/","title":{"rendered":"A linguagem torta de &#8220;Torto Arado&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Pois \u00e9! Como na can\u00e7\u00e3o de Ataulfo Alves, \u201cfalaram tanto que a morena foi embora\u201d. A morena, no caso, \u00e9 o romance \u201cTorto Arado\u201d, do ge\u00f3grafo e escritor Itamar Vieira J\u00fanior. Mas n\u00e3o foi embora de casa, como na letra da m\u00fasica. Foi embora do anonimato para o sucesso, o estrondoso sucesso editorial como o grande destaque da literatura nacional em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro simplesmente abocanhou os mais cobi\u00e7ados pr\u00eamios liter\u00e1rios de l\u00edngua portuguesa. Foi o vencedor dos Pr\u00eamios Leya (2018), em Portugal, e Oceanos e Jabuti, no Brasil, estes dois \u00faltimos em 2020. Inicialmente, foi publicado em Portugal pela Ed. LeYa e saiu no Brasil pela editora Todavia. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, na internet a obra \u00e9 uma febre. Os que apreciam livro badalado n\u00e3o falam de outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O romance vem conquistando o p\u00fablico porque, em uma trama muito bem articulada, na qual exp\u00f5e as desigualdades, as injusti\u00e7as e a viol\u00eancia ainda vividas nos grot\u00f5es do Brasil pelos descendentes de escravos, d\u00e1 voz aos exclu\u00eddos e, dentre estes, \u00e0 mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, a hist\u00f3ria se passa no sert\u00e3o baiano. Duas irm\u00e3s, Bibiana e Belon\u00edsia, ainda crian\u00e7as, acham uma misteriosa faca de sua av\u00f3 Donana. A arma encontrava-se escondida e enrolada em um pano dentro de uma velha mala, debaixo da cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Com aquela curiosidade infantil, as duas crian\u00e7as colocam a faca na boca. Uma delas, em um golpe acidental, perde a l\u00edngua. E assim, com essa faca amolada, \u00e9 disparado o gatilho da hist\u00f3ria das protagonistas da obra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao largo da cr\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um adendo: n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio. Quando iniciei o curso de Letras, em 1999, imaginava que esse seria o meu caminho. Logo descobri, por\u00e9m, que o que me atra\u00eda no curso era a lingu\u00edstica, sobretudo a an\u00e1lise do discurso e a sociolingu\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, as breves reflex\u00f5es que trago a seguir sobre \u201cTorto Arado\u201d devem ser situadas no plano das impress\u00f5es de leitura, apenas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pecado capital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao meu ver, no que pese a narrativa bem constru\u00edda e os bons momentos de literatura, o livro tem um pecado original de linguagem. Se literatura \u00e9 linguagem, \u00e9 uma falha inegoci\u00e1vel, especialmente para uma obra j\u00e1 elevada ao patamar de cl\u00e1ssico por muitos leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>No romance, as narradoras, nascidas e criadas no ambiente rural, contam suas hist\u00f3rias atrav\u00e9s de um vocabul\u00e1rio rebuscado, acad\u00eamico, totalmente incompat\u00edvel com a sua condi\u00e7\u00e3o sociocultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho em m\u00e3os a 12\u00aa. reimpress\u00e3o da obra, de 2021. Marquei aleatoriamente algumas passagens.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na abertura do primeiro cap\u00edtulo, na p\u00e1gina 13, Bibiana, narrador-protagonista, traz esta fala: \u201c<strong>Aproveit\u00e1vamos <\/strong>as palhas que j\u00e1 amarelavam para vestir feito roupas nos sabugos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E segue:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cQuanto mais <strong>chor\u00e1vamos<\/strong> abra\u00e7adas, querendo pedir desculpas, mais ficava dif\u00edcil saber quem tinha perdido a l\u00edngua\u201d. (p.17)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&#8211; \u201cMesmo assim, minha m\u00e3e pedia que a <strong>acompanh\u00e1ssemos<\/strong>, que <strong>vigi\u00e1ssemos<\/strong> para que n\u00e3o lhe sucedesse nenhum acidente\u201d (p.28)<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cSe era brincadeira de jar\u00ea, <strong>fic\u00e1vamos<\/strong> acordados at\u00e9 a madrugada correndo pelo terreiro, contado hist\u00f3rias e rindo alto\u201d (p.43)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nem com Paulo Freire<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando iniciei a leitura, fiquei aguardando que ao longo do texto houvesse uma explica\u00e7\u00e3o sobre o n\u00edvel da linguagem das personagens supostamente r\u00fasticas, despossu\u00eddas, criadas em ambiente atrasado, sem escola, sendo instru\u00eddas por uma professora que mal sabia para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o repert\u00f3rio vocabular das personagens n\u00e3o muda. N\u00e3o h\u00e1 Paulo Freire no mundo que consiga isso. Pelo contr\u00e1rio, vai se reproduzindo e se afirmando ao longo das 262 p\u00e1ginas do romance.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 pela p\u00e1gina 45, Santa, outra personagem do meio rural, reclama dos donos da terra: \u201c<strong>Que usura<\/strong>! Eles j\u00e1 ficaram com o dinheiro da colheita do arroz e da cana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bibiana com a palavra outra vez:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cNa primeira vez em que minha m\u00e3e enviava recado a uma ou a outra, como sempre <strong>fizera<\/strong>, nos <strong>esquiv\u00e1vamos<\/strong>, e Domingas assumia a fun\u00e7\u00e3o de <strong>replicar<\/strong> a informa\u00e7\u00e3o. (p.49)<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cO rio estava com forte correnteza e minha m\u00e3e nos levou para uma pequena lagoa, <strong>tribut\u00e1ria<\/strong> das \u00e1guas do Santo Ant\u00f4nio. (p.49)<\/p>\n\n\n\n<p>O texto segue com express\u00f5es e termos que n\u00e3o cabem na boca de personagens semiletrados: \u201cdores <strong>lancinantes<\/strong>\u201d, \u201c<strong>remiss\u00e3o<\/strong>\u201d, \u201cpele <strong>erodida<\/strong> pelo sol; \u201c<strong>aquiesceu<\/strong>\u201d, \u201c<strong>interdito<\/strong>\u201d, \u201c<strong>hiato<\/strong>\u201d, \u201c<strong>brandia<\/strong> os instrumentos com for\u00e7a\u201d, \u201csem folhas <strong>farfalhando<\/strong>\u201d, \u201cSevero agia da mesma forma na <strong>trama em que est\u00e1vamos enredados<\/strong>\u201d, \u201c<strong>esgar\u00e7ados<\/strong>\u201d, \u201cera jaca mole e eu <strong>regurgitava<\/strong> tentando engolir\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Calcanhar de Aquiles<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bem, ainda que tenham consci\u00eancia cr\u00edtica sobre a realidade que as cercam, como o autor faz crer, as personagens criadas por Itamar Vieira J\u00fanior n\u00e3o seriam capazes de expressar isso na forma como est\u00e1 em seu livro.<\/p>\n\n\n\n<p>O escritor Yuval Harari alerta, em \u201cSapiens: Uma Breve Hist\u00f3ria da Humanidade\u201d (2014): \u201cContar hist\u00f3rias eficazes n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A dificuldade est\u00e1 n\u00e3o em contar a hist\u00f3ria, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, para mim, essa incongru\u00eancia de linguagem \u00e9 o que vejo como o calcanhar de Aquiles de \u201cTorto Arado\u201d. \u00c9 o que tira o brilho do livro, pois passa por cima de um dos elementos essenciais da linguagem liter\u00e1ria &#8211; a verossimilhan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Trago esta compara\u00e7\u00e3o entre dois pol\u00edticos de nosso tempo para ilustrar este argumento: n\u00e3o ponho em d\u00favida, por exemplo, que o ex-presidente Lula conhe\u00e7a mais o Brasil profundo do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele n\u00e3o me convenceria se se expressasse sobre as mazelas e riquezas desse Brasil bruto com as palavras do cotidiano de FCH, peneradas na academia.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros artistas da palavra que se tornaram efetivamente cl\u00e1ssicos buscaram o repert\u00f3rio vocabular condizente com seus personagens para dar verossimilhan\u00e7a \u00e0s suas falas.<\/p>\n\n\n\n<p>Itamar Vieira J\u00fanior ou se descuidou disso ou, depois de cortar a l\u00edngua de uma das personagens, tentou compens\u00e1-la com uma fala que n\u00e3o \u00e9 dela, mas do universo vocabular erudito do autor.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9! Como na can\u00e7\u00e3o de Ataulfo Alves, \u201cfalaram tanto que a morena foi embora\u201d. A morena, no caso, \u00e9 o romance \u201cTorto Arado\u201d, do ge\u00f3grafo<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":520,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[68,67,66,65],"class_list":["post-519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-critica","tag-itamar-vieira-junior","tag-literatura","tag-romance","tag-torto-arado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=519"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":940,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/519\/revisions\/940"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/520"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}