{"id":1018,"date":"2024-06-01T07:00:00","date_gmt":"2024-06-01T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/?p=1018"},"modified":"2025-04-21T10:02:27","modified_gmt":"2025-04-21T13:02:27","slug":"dondon-um-jornalista-de-tirar-o-sossego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zozimotavares.com\/site\/2024\/06\/01\/dondon-um-jornalista-de-tirar-o-sossego\/","title":{"rendered":"Dondon, um jornalista de tirar o sossego"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele costumava dizer que n\u00e3o daria trabalho aos amigos, porque morava perto da cadeia, do hosp\u00edcio e do cemit\u00e9rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o final da primeira metade do s\u00e9culo 20, os jornais de Teresina estampavam poesias, cr\u00f4nicas melosas, romances em rodap\u00e9, elogios f\u00fanebres, batizados, artigos doutrin\u00e1rios e lavagens, denomina\u00e7\u00e3o das baixas descomposturas endere\u00e7adas a advers\u00e1rios pol\u00edticos, como relatou A. Tito Filho, um dos mestres do jornalismo e da literatura piauienses.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os profissionais daquelas primeiras gera\u00e7\u00f5es de nossa imprensa, um sobressaiu-se pela originalidade e a irrever\u00eancia: Ant\u00f4nio Santana Castelo Branco, o Dondon.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em 1879, em Livramento, hoje munic\u00edpio de Jos\u00e9 de Freitas, ele faleceu em 1953, em Teresina. &nbsp;Hoje \u00e9 um ilustre desconhecido na terra natal. Ali\u00e1s, nas duas cidades. Na capital, seu nome s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 ainda mais an\u00f4nimo por ter sido dado a uma rua do bairro Horto Florestal, na zona Leste.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO Denunciante\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tido como louco varrido, o jornalista agitou a Teresina do seu tempo e costumava dizer que n\u00e3o daria trabalho aos amigos, porque morava perto da cadeia, do hosp\u00edcio e do cemit\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1918, ele fundou o jornal <em>O Denunciante<\/em>, do qual era diretor, rep\u00f3rter, redator, tip\u00f3grafo, revisor, impressor e vendedor.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu jornal marcou \u00e9poca na d\u00e9cada de 20, por ser um noticioso cr\u00edtico, censor de costumes, espinafrador de pol\u00edticos e administradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Refletia o esp\u00edrito irrequieto, combativo, extravagante e pol\u00eamico de seu dono, que sofreu muitas retalia\u00e7\u00f5es em consequ\u00eancia da postura agressiva do seu jornal. V\u00e1rias vezes foi preso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da cadeia para o hosp\u00edcio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, os poderosos de ent\u00e3o o consideraram louco e, vingativamente, o puseram no Hosp\u00edcio dos Alienados, no Campo de M\u00e1rtir \u2013 hoje Hospital Psiqui\u00e1trico Areolino de Abreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginaram que, com o corretivo, ele recuaria nas censuras e espinafra\u00e7\u00f5es. Foi pior. Quando saiu do hosp\u00edcio, Dondon reapareceu mais violento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem que lhe faltasse o esclarecimento identificador do parafuso frouxo, escreveu: &#8220;<em>O dono deste jornal esteve recolhido ao Asilo dos Doidos, onde passou dez dias, seis por conta do governo e quatro por sua pr\u00f3pria conta<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Parente importante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dondon era tio do renomado jornalista piauiense Carlos Castello Branco, o maior cronista brasileiro da segunda metade do s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com pena afiada, trazia a cidade em sobressalto, denunciando as suas faltas e as suas fraquezas mais \u00edntimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim o retratou o poeta H. Dobal, no livro <em>Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina<\/em>, escrito em 1952, no centen\u00e1rio da cidade, e publicado somente em 1992, na administra\u00e7\u00e3o do prefeito Her\u00e1clito Fortes, por sinal parente tamb\u00e9m de Dondon.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os desertores de enterro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antigamente, em Teresina, o defunto era conduzido ao cemit\u00e9rio com muita simplicidade. N\u00e3o havia ainda carro funer\u00e1rio. Parentes e amigos mais pr\u00f3ximos carregavam o esquife, a p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s do caix\u00e3o, iam os familiares e os amigos, conhecidos e admiradores do finado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dondon muito se preocupava com o acompanhamento. Em 1928, escreveu em seu jornal, para esc\u00e2ndalo da cidade:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>Na hora do enterro apresenta-se um aluvi\u00e3o de pessoas para acompanhar o defunto, por\u00e9m logo no sair da porta come\u00e7a a debandada de um, dois, aqui, ali e acol\u00e1, e quando chega do meio do caminho em diante \u00e9 que a debandada \u00e9 grande, chegando ao cemit\u00e9rio quase sem acompanhamento (&#8230;) Por qualquer motivo, nestes casos ser\u00e1 melhor que l\u00e1 n\u00e3o v\u00e1, e n\u00e3o ir somente aparentar (&#8230;) como tem acontecido nestes \u00faltimos enterros (&#8230;)<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outra edi\u00e7\u00e3o, escreveu: &#8220;<em>No dia 6, morreu nesta capital e enterrou-se no dia 7, Dona Delmira Lob\u00e3o Veras, m\u00e3e do m\u00e9dico Dr. Anfr\u00edsio Lob\u00e3o, a quem o dono deste jornal apresenta p\u00easames extensivos aos demais parentes. Acompanharam o enterro 42 pessoas e voltaram do caminho 21. No pr\u00f3ximo n\u00famero ser\u00e3o publicados apenas os nomes das pessoas que chegaram ao cemit\u00e9rio<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>A lista, sempre aguardada com expectativa pelos leitores, ia variando conforme o finado e o humor do jornalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, ele publicava a rela\u00e7\u00e3o dos que iam abandonando o cortejo f\u00fanebre, indicando os locais exatos da debandada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cPatrono da Imprensa\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seu jornal trouxe tamanha inquieta\u00e7\u00e3o que acabou empastelado, e suas m\u00e1quinas foram parar nas \u00e1guas do Rio Parna\u00edba. Mas ele n\u00e3o se entregou. Passou a tir\u00e1-lo manuscrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Era esse o velho Dondon de guerra, que lembro neste Dia da Imprensa como exemplo de um jornalista de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele bem merece o t\u00edtulo de \u201cPatrono da Imprensa Piauiense\u201d que estamos a lhe dever!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>(Por <strong>Z\u00f3zimo Tavares<\/strong>, em 1\u00ba de junho de 2024).<\/em>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele costumava dizer que n\u00e3o daria trabalho aos amigos, porque morava perto da cadeia, do hosp\u00edcio e do cemit\u00e9rio. 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